Parida em meio ao nada. Tua mãe saltou da carroça, se embrenhou no meio do mato e voltou contigo nos braços. Te gerou, encaixou nas ancas e te tirou de dentro. Teu pai estava longe e não pode cair em lágrimas ao ouvir teu choro. …


Empunhar a caneta do registro histórico em uma sociedade é carregar consigo os acontecimentos da esfera pública e, de alguma forma, seus preconceitos. Não à toa, constantemente, mulheres são esquecidas de serem representadas em linha de combate. Para Quétel, as mulheres são “as eternas esquecidas da história das guerras. …


Me pergunto se já nos descobriram. Eles são obcecados pela experimentação. Acreditam que ao vagar poderão nos encontrar mais rápido. Geralmente habitam a noite porque a neblina esconde melhor. Quem sabe o tesouro reluz? Será que porventura eles continuam a imaginar? O que acontece com aqueles que desistem?

Difícil é ser fácil e assim somos nós. Não sei bem como aconteceu, eu não procurava. Enquanto os anteriores me desapontavam, nós brincávamos de estar separados. Mas já estávamos sendo juntos. Mesmo quando apenas éramos — o amor.


Silueta Series, por Ana Mendieta

Preciosa e dolorida. Assim são as gestações. Insistentemente, repito: “é só mais um bolo sem forma, sem nome”.

Desta criatura, finjo não saber da existência. Afinal, possivelmente, já fizeram-na antes. Fico a me apequenar e depois volto a superfície.

Não demora muito e ouço meu nome. Terreno é quem chama…


Vez ou outra visito aquele quarto sujo. Não observo com pesar, apenas sinto e aceito. Eu já fui tolhida. Me retiro, mas volto para enxergar o local onde não quero permanecer. Eu consigo. Eu vou conseguir.

Descanso.


Falo que não me preenche. Falo que não me faz falta.

É da minha natureza: a negação ao raso. A buceta. Esse buraco, o negativo, jamais fora atestado da necessidade de preenchimento. Não simboliza ausência, mas sim profundidade.

Súbito. O líquido que escorre pelas minhas pernas invade qualquer terra, sente…


Raquel Pellicaro — Série Perdas e Permanências

Não recordo quando comecei a fazer aquele movimento repetitivo, mas as minhas mãos doíam. Sentia a tensão quando a palma de uma mão entrava em contato com a outra. Aquilo me aborrecia. Um atestado de controle e não importava o ser que se apresentasse a minha frente.

O progenitor pediu…


Quando sonhei que andava por uma rua escura vendo idosos esperando pela morte, eu só procurava por você. Talvez um daqueles senhores fosse minha personificação. Eu sentia o amargor da morte até mesmo de olhos abertos. As vozes reafirmavam isso. Elas diziam para você me matar. Tu dizia que não…


Não importa o espaço-tempo. Lá estarei farta, fluída e escorregadia. Em algum momento inoportuno Zéfiro veio do Oeste e me beijou. Seu sopro deu furor a trotes internos e sensíveis. A quietude me tomou conta e junto dela veio o sentimento de perda. Perda daquilo que outrora arrematava — nos tornávamos um -. Depois disso, perda de tu ou de mim, não sei. A completude tão bem definida tornava a identificação turva. Assim foi. Tua partida seguida de diversas visitas. Visitas. Passageiras, desinteressantes, vazias. Enquanto o anseio era por plenitude.

Evoco teu nome. Encaro a ferida, mas não espero que cicatrize. Gosto da ideia de carregar você, ainda que seja apenas como uma marca.


foi chamada.

Nasceu num mundo torto,

mas viestes guerreira.

As pancadas por vezes te levam ao chão,

mas n’outro dia -secreta- levanta-te.

Disposta a recriar.

Alimenta. A sensibilidade te guia.

Muito antes que o físico, enxergas o imaterial.

Energias que nos circundam

e firme na ciência

-e-fé-ciência -

se mantém.

O ventre do qual veio, Pachamama,

lhe garantiu tudo que precisas. Nutriu.

Basta se firmar. Não arredar.

Negar ao patriarcado que só deseja nos cegar.

Vai, gira com a terra.

Sintoniza com a lua.

Perceba o movimento de tuas águas internas

e balança, vai no gingado

O sol iluminando.

As águas te limpando.

O vento a te lembrar

que somos uma e juntas vamos

mais leve pra-zerar.

Amanda Oliveira

Jornalista, de Brasília (DF).

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